Em meio ao risco e à pressão no Rio, policial encontra na fé um novo sentido para a farda

Publicada em: 04/04/2026 08:12 -

Evangélica e convertida já na vida adulta, a policial Munique Busson descreve sua aproximação com a fé como um processo gradual, marcado por rupturas pessoais. Foto: Divulgação

 

Munique Busson, que atua em áreas de conflito e tem mais de 800 mil seguidores nas redes, relata como a espiritualidade e a perda da mãe a levaram ao batismo tardio.

 

 

Na linha de frente da segurança pública fluminense, onde cada decisão é tomada em frações de segundo e o perigo é constante, a história da policial Munique Helena Busson ganhou um capítulo que não consta em boletins de ocorrência: a religiosidade. Entre missões em regiões dominadas pelo tráfico e a vida exposta nas plataformas digitais, a militar transformou a espiritualidade em um alicerce que reestruturou tanto sua vida íntima quanto sua visão sobre a profissão.

 

Natural de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, Munique, de 37 anos, entrou para a Polícia Militar fluminense em dezembro de 2015. Desde então, atuou em Unidades de Polícia Pacificadora e em operações em comunidades consideradas críticas, como os complexos da Penha e do Alemão. Foi nesse cenário de estresse extremo que, de modo aparentemente contraditório, ela diz ter encontrado espaço para cultivar a vida espiritual.

 

A fama nacional, no entanto, veio acompanhada de polêmica. Nas redes sociais, onde reúne mais de 800 mil seguidores, Munique se destacou ao responder às críticas da professora Jacqueline Muniz, da Universidade Federal Fluminense, defendendo a atuação policial e mostrando o dia a dia da corporação. O episódio ampliou sua projeção, rendendo convites para programas de TV, entrevistas e a posição de apresentadora do podcast Papo Reto. Mas por trás da postura firme em público, uma jornada íntima começava a se revelar.

 

Evangélica convertida na fase adulta, a policial conta que sua aproximação da fé foi gradual e marcada por rompimentos pessoais. “Comecei a orar já adulta, por volta dos 30 anos. Não herdei isso de uma criação cristã nem de orientação religiosa em casa. Pelo contrário, cresci sem figura paterna, e isso sempre dificultou entender o amor de Pai, confiar, sentir-me acolhida”, diz.

 

Antes disso, ela se considerava autossuficiente. “Por muito tempo, achei que bastava não prejudicar ninguém e viver do meu jeito. Não acreditava no mundo espiritual e achava que ser correta já era o bastante”, explica.

 

O primeiro contato mais intenso com a espiritualidade ocorreu quando trabalhava como segurança em uma igreja. “Estava ali por dever, não por fé. Mas foi naquele lugar que comecei a testemunhar coisas que não sabia explicar. Vi a ação de Deus na vida de outras pessoas, transformações, restaurações”, recorda. A virada decisiva, porém, veio com a dor. “Em janeiro de 2024, enfrentei um dos momentos mais duros da minha vida: descobrimos o câncer da minha mãe.” Quinze dias antes de falecer, em 1º de abril, sua mãe, que era espírita, tomou uma atitude que a marcou profundamente.

 

“No dia 1º de abril, no leito, minha mãe aceitou Jesus. Eu estava ali. Vi e senti. Aquilo me abalou por completo”, conta. Mesmo assim, a decisão final demorou a se concretizar: “Queria me batizar, mas sempre aparecia algum obstáculo, uma dúvida, um medo. Hoje entendo que havia uma batalha espiritual e também uma luta interna, porque confiar em Deus como Pai não era simples para quem nunca teve essa referência na terra.”

 

O batismo aconteceu em dezembro de 2025. “Finalmente me batizei. E não foi sozinha: foi com minha filha mais velha. Não foi apenas um batismo, foi uma entrega, um posicionamento. Depois disso, muita coisa mudou em mim, e isso refletiu no meu trabalho, no meu jeito de falar e de me portar”, afirma.

 

Em operações de alto risco, como as realizadas no Complexo do Alemão, essa convicção se manifesta de forma imperceptível para quem está de fora. “Hoje entendo que há propósito, direção, proteção. Minha conversão não foi repentina. Foi um processo com dor, dúvida, resistência — mas foi real”, diz.

 

No Brasil, onde a violência estrutural e a religiosidade frequentemente andam juntas, a trajetória de Munique Busson sintetiza essa tensão sem torná-la contraditória. “Hoje sei que a fé que vivo não é emoção, aparência ou tradição. É experiência, vida, transformação”, conclui.

FONTE: Kadoshwr com informações da comunhão 

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